Coragem de se sentar numa cadeira e escutar uma música de Maysa, revolvendo a existência, a ausência, o luto e, entre outras coisas, talvez, o desamor. No limite entre uma tragédia romântica quase operírstica e um show (burlesco) de cabaré. Fez assim o artista Marco Paulo Rolla, vestindo terno, camisa, gravata e máscara pretas em sua performance “Uma Canção na Vitrola”, no último dia da mosta anual de performance arte, a VERBO, na galeria Vermelho, SP, semana passada.Voltas e mais voltas histriônicas pela mesma canção, o corpo sentado, pendendo o tronco de um lado para o outro, como se num lá lá lá quase lisérgico, de baixíssima rotação, impressionante é como neste arremedo de sons e movimentos esta performance parecia conseguir hipnotizar o pensamento ao encontro de espelhos próprios dos espectadores, íntimos, ora engraçados e ao mesmo tempo, inversamente, não muito agradáveis. Como uma caricatura que revela o quão humano, e às vezes ridículos de fato somos.
A VERBO este ano esteve mais enxuta, em quatro noites. Um blackout no dia da abertura provocou uma ligeira desorganização (tirando muito da potência do trabalho de Lot Meijers, The Dinner) e parece ter espantado o público para os outros dias.
Na segunda noite, o falatório sem fim da longa performance dos portugueses Andresa Soares e Ricardo Jacinto, In a Rear Room - um tributo, deu um sono danado, mas parecia ser essa uma das intenções.
Na quinta-feira, 14/07, Rose Akras e Rob Visser suaram e arrasaram na plasticidade com a construção de uma espécie de teia de aranha com rolos imensos de fio de naylon (Movement with a Rest Product: Space), na sala central térrea da galeria. No mesmo dia, Eva Schippers pôs quatro artistas para correr numa esteira encarando a parede.
Quem consegui ver a performance para uma pessoa, de Eva Winger- Bearskin, com hora marcada previamente, saiu feliz. E ainda pelo último dia, a performance de Nir De Volff, What a Mess, uma espécie de monólogo tragi-cômico em inglês, foi bem chata, para não dizer constrangedora.
Talvez este ano a VERBO tenha sido menos interessante que a do ano passado. Mas o bom mesmo, quem sabe por ter menos artistas e menos gente, foi que nesses quatro dias na Vermelho o campo parecia estar mais aberto para ver, sentir, pensar, conversar, mudar e trocar de opiniões, idéias e afetos. Livremente, sem "carão", como sempre deve ser.
Ah! A caipirinha de limão galego do bar montado no pátio de entrada (R$ 8) era maravilhosa!
(foto de Julio Callado retirada do site "Festival Performance Arte Brasil".)

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