

Nascida em Belgrado, a obra de Marina Abramovic parece ser indissociável de referências à guerra e dos conflitos político-religiosos e territoriais que envolveram a região dos Balcãs durante quase todo o século XX.Evidentemente, seus trabalhos vão muito mais adiante do que uma intenção de engajamento político através da arte, apesar da política propriamente dita ser quase que inerente à sua vida: aos 20 anos, se filiou ao Partido Comunista iugoslavo e aos 22, em 1968, lutou no movimento estudantil contra o ditador Tito.
Mas antes de tudo, Marina sempre pensa e utiliza o seu corpo, assim como se utiliza de objetos, para constituir ideias plásticas (muitas vezes no limiar entre as estéticas barroca e realista) em ações que digam respeito às histórias de sua vida: de como vê e sente o mundo; as suas dores e os seus amores.
É dessa notória expressão autobiográfica em suas performances, estejam elas nas chaves irônicas, trágicas, existencialistas ou delatórias, sempre com uma busca transgressora pouco crível de limites do corpo, da mente e da dor, que o estilo de Marina fica marcado.
Interessantes pinceladas sobre a sua vida e obra (de fato, indissociáveis) podem ser vistas no documentário Balkan Barroque, do cineasta francês Pierre Colibeuf, http://www.viddler.com/explore/ManooN/videos/27/.
Além do filme, e dos vários livros (a maioria em inglês) sobre essa artista da velha guarda, uma das pioneiras da performance nas artes visuais, já com pupilos espalhados em vários lugares do mundo, outra fonte fácil de acessar para saber mais sobre o trabalho de Abramovic (principalmente para aqueles que não conseguem ficar sem explicações verbais, ou racionais, sobre o que vêem em arte contemporânea) está no site da galeria Luciana Brito, http://soundcloud.com/user9191787/marina-abramovic-original, numa palestra que a própria Marina deu quando esteve aqui em São Paulo.
Dessa fala deliciosa, dentre tantos assuntos, é no mínimo engraçado saber que a bela mulher, politizada e aparentemente forte, poderosa e controladora (no sentido de seu desempenho em suas impactantes performances e sobre as projeções destas no âmbito artístico) se achava feia; era alta, magra e nariguda e com isso sofria quando menina. Sonhava em ter um nariz igual ao de Brigitte Bardot.
“Eu tenho uma teoria: quanto pior a sua infância, melhor você será [como artista], porque ninguém faz bons trabalhos [de arte] pela felicidade, mas pelo sofrimento...”
Ao que parece, a galeria Luciana Brito fez um bom apanhado desse "sofrimento", em exposição prorrogada até o dia 12/ 02, com vídeos, fotos e histórias que envolvem, acolhem e sensibilizam o espírito, dos mais fortes e alegres aos mais frágeis e sofríveis. Da Vila Olímpia, saí pensando que um dia preciso ver ao vivo uma performance ou qualquer outra coisa dessa mulher.
O fato é que a real tragédia que acomete o nosso mundo não está exatamente representada nas ações “dolorosas”, melancólicas e nada convencionais de Marina Abramovic, mas na crença que há quase três séculos a sociedade capitalista industrial continua a profetizar: a tola ideia da felicidade plena, que se não é sentida pode ser comprada, e que a gente sabe muito bem que aqui na Terra dificilmente isso um dia vai existir.
Marina Abramovic - Back to Simplicity
Luciana Brito Galeria
Rua Gomes de Carvalho, 842, Vila Olímpia - São Paulo
Terça a sexta: das 10h às 19h
Sábados: das 11h às 17h
Até 12 de fevereiro

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