
Depois de uma semana agitada, com a incrível mostra anual de performances de artistas, VERBO, na Galeria Vermelho e CCSP, e o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, FILE, na FIESP, é super válido dar um pulo, por não dizer imperdível, no Tomie Ohtake para ver o belíssimo trabalho de Sandra Cinto, Imitação da Água, no seu último final de semana de apresentação, até domingo, 31/07, nesta capital.Ondas prateadas feitas à caneta, com traços de variadas espessuras, vão formando uma comunidade de nuvens pontiagudas, às vezes retorcidas em caracóis macios e afetuosos, ou construindo uma cadeia de montanhas que, na verdade, representam o movimento oscilante das águas do mar.
Num primeiro instante, desse emaranhado infinito de ondas, feitas incansavelmente, ora em telas, ora diretamente na parede da sala redonda do andar térreo do Instituto, onde Sandra foi ajudada por dois artistas assistentes (neste momento, paira a dúvida se não seria bacana ter um vídeo, provavelmente passando em outra sala, documentando o processo de construção desse site specific), surge na memória a famosa Grande Onda, da gravura de Hokusai.
Mas não é só Hokusai que a artista parece evocar (impossível saber se intencionalmente ou não). Pode ser que aqui, suas inspirações sejam diversas: desde os escritores (João Cabral de Melo Neto é certo) cujos livros empilhados formam um dos pés do banco-escultura (onde se pode sentar), que ocupa uma das salas da exposição, até outras marcas da arte Edo japonesa (séculos XVII – XIX), quando se usavam aplicações de ouro e prata para decorar as pinturas, gravuras e desenhos, geralmente paisagens compostas sempre pelas formas planares, uma maneira potente de eternizar, ou congelar, a impermanência das ações presentes, ou da própria vida... (continua)

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